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Projeto “Djunta mon” – competências em língua portuguesa

Em novembro do ano passado, deu-se início, na cidade do Porto, a um novo projeto da SMV no âmbito do aperfeiçoamento de competências em língua portuguesa. Este projeto, designado por Djunta mon, expressão que, em crioulo da Guiné-Bissau, significa “unir forças / juntar mãos”, surgiu na sequência de um projeto-piloto que teve lugar nos meses de junho e julho do ano passado e destina-se especificamente a estudantes guineenses que frequentam atualmente o Ensino Superior Público Universitário ou o Ensino Superior Público Politécnico na área do Grande Porto. Sob a coordenação da associada Leonida Milhões, o curso conta com a colaboração das associadas Margarida Mouta, na lecionação da Componente Escrita e Júlia Cordas, na lecionação da Componente Oral.

Fomos saber, junto das suas principais dinamizadoras, o modo como está a decorrer.

Como surgiu este novo projeto da SMV?

O projeto partiu de um pedido apresentado junto da SMV pelo Ronaldo Mendes, à data Presidente da Associação de Estudantes da Guiné-Bissau, e Olompa Gomes que depois o substituiu na presidência da referida Associação quando ele terminou as suas funções. Estes dois estudantes foram metorandos do projeto Mentoring SMV.

Com o aval da Direção foi proposto à Associação de estudantes, já então presidida pela Olompa Gomes, a realização de uma atividade piloto em julho de 2024 a cargo das associadas Margarida Mouta e Júlia Cordas. Ao  Centro Comunitário S. Cirilo, onde Margarida Mouta faz trabalho de voluntariado, foi pedida a cedência de uma sala para essa atividade. Após uma avaliação positiva feita por todos os interessados, e tendo em conta o interesse manifestado pelos estudantes, foi decidido construir um Projeto para 2024/25 mantendo as parcerias estabelecidas e continuando a fazer as sessões no Centro Comunitário S. Cirilo no Porto.

Estas sessões, a que poderemos chamar aulas, realizam-se com uma frequência semanal e têm a duração de duas horas. No total, o curso desenvolve-se ao longo de 52 horas.

Como decorreu o projeto-piloto?

Numa primeira fase, recolhemos dados através da realização de um teste de diagnóstico, o que tornou possível situar os estudantes num nível de proficiência linguística, identificar os seus pontos fracos e orientar o seu percurso no reforço de competências em língua portuguesa. Tentamos fazer com que todos “pusessem as cartas na mesa” e falassem das principais dificuldades sentidas enquanto alunos da universidade. Foram muitos os que afirmaram ter dificuldade em interpretar as perguntas (“não consigo entender os enunciados dos testes, não percebo bem o que o professor está a pedir”); em distinguir as proposições falsas das verdadeiras, em iniciar uma resposta a uma pergunta de desenvolvimento, em conjugar adequadamente um verbo ou optar pelo modo e pelo tempo certo (“Tenho dificuldades na conjugação de certos verbos – às vezes evito usar certos tempos e modos verbais, com medo de errar”); em expressar-se de forma adequada durante uma apresentação oral (“Não consigo expressar o meu pensamento por palavras”). Todos, quase em uníssono, reconheciam as suas dificuldades na elaboração de sínteses, relatórios, resumos e análises críticas e, grosso modo, em desenvolver uma reflexão teórica ao nível que lhes era exigido no curso que frequentavam.

Depois, ao longo das sete semanas de duração do projeto, tentamos proceder a um trabalho oficinal que permitisse colmatar pelo menos algumas das falhas detetadas.

Ao longo dessas sete semanas, a então Presidente da Associação de Estudantes, Olompa Gomes, teve um papel muito ativo no acompanhamento e no incentivo aos colegas, participando, também ela, nas aulas, apesar de o seu nível de competência linguística já não o justificar.  Apesar do entusiasmo inicial, assistimos a uma quebra na assiduidade que se deveu, sobretudo, ao facto de alguns estudantes se encontrarem ainda em fase de preparação de exames finais e outros se encontrarem a trabalhar, aproveitando a chegada das férias universitárias. De qualquer modo, os dois terços de “resistentes” que concluíram o curso consideraram que as sessões haviam sido bem estruturadas, com abordagens temáticas pertinentes e, sublinhando a sua utilidade. Deixaram claro o seu desejo de prosseguir numa via que permitisse dar continuidade a esta experiência-piloto.

Margarida, quando se iniciou esta nova intervenção e como está estruturada?

O curso, tal como está atualmente estruturado, teve início no dia 22 de novembro de 2024. Foi construído com base no projeto-piloto. Mas, como se estenderá até julho de 2025, compreende um maior número de sessões distribuídas por dois módulos: um primeiro módulo assegurado por mim, que visa o aperfeiçoamento de competências básicas no domínio da escrita e que se prologará até início de abril. Um segundo módulo que abordará competências mais específicas, pretendendo desenvolver tanto o domínio da oralidade como o domínio da escrita académica em português europeu. Este decorrerá entre o início de maio e o final de julho do ano em curso e será lecionado pela Júlia (compreensão e expressão oral) e por mim (compreensão e expressão escrita).

Quais os objetivos visados e os resultados esperam alcançar?

No nosso horizonte expectacional está sempre uma maior e melhor integração destes estudantes guineenses no contexto académico em que se movem.  Os domínios da leitura e da escrita do Português são meios fundamentais de comunicação e de construção crítica do conhecimento. Os principais resultados esperados giram em torno do aperfeiçoamento de competências de leitura ativa e do desenvolvimento de técnicas de comunicação que tornem possível a produção de textos orais e escritos adequados ao perfil académico que se exige a estes estudantes. Tudo isto, tendo sempre em consideração o impacto destas competências no seu sucesso escolar.

Quantos formandos/as estão a frequentar o curso e quais a suas motivações e preocupações? Neste momento, a turma tem dez jovens (cinco rapazes e cinco raparigas) que participam com regularidade no curso. Dois encontram-se a frequentar Cursos Técnicos Superiores Profissionais na Atlantic Business School (em Vila Nova de Gaia) Os restantes repartem-se por Institutos e Faculdades da Universidade do Porto (ISEP, ISCAP, FEP, PFCEUP).

Quer as suas motivações quer as suas preocupações prendem-se diretamente com a situação que vivem no seu quotidiano escolar. Há desabafos que me deixam desconfortável perante as situações de impotência que estes jovens vivem – “Embora tenha estudado, às vezes, durante as frequências, não consigo explicar o que penso, não consigo responder”. Alguns trabalham para fazer face às despesas. Há quem chegue a casa depois da meia-noite, no final de uma manhã e de uma tarde passados na faculdade e de um fim de tarde/noite, passado na cozinha de um restaurante… Todos desejam alcançar uma proficiência linguística que lhes permita a inclusão plena em contexto universitário. Mas todos têm consciência de quanto esses objetivos estão longe e são difíceis de alcançar.

Margarida, concretamente, que atividades desenvolvem no Módulo I?

Neste primeiro módulo, tenho proposto atividades que se centram na leitura e comentário de textos de tipologias variadas. Trata-se de textos selecionados por mim ou de textos produzidos pelos próprios formandos. O importante, na abordagem destes materiais é propiciar a observação de ocorrências de natureza linguística, a sua problematização e clarificação. Mas tenho também a preocupação de dinamizar discussões suscitadas pelos temas que eles abordam, no sentido de exercitar o espírito crítico e a criatividade. Paralelamente, há atividades de reescrita, exercícios estruturais para consolidação de conteúdos gramaticais e pequenas atividades que preveem o alargamento cultural e/ ou o confronto das duas culturas (portuguesa e guineense).

E a Júlia, o que pensa fazer?

A compreensão do discurso oral será ativada através de exercícios de audição / visionamento de materiais em suporte áudio e vídeo. O objetivo é que permitam que os estudantes apreendam informações factuais simples, identifiquem as questões principais de um discurso claro, em língua-padrão, sobre assuntos relacionados com a sua vida académica e com a sua área de estudo. Serão usados pequenos vídeos, conteúdos da TV, da rádio, pequenas conversas, canções, etc.…

A competência de expressão oral será mobilizada através de tarefas orientadas, que levarão os estudantes a apresentar opiniões e pontos de vista devidamente justificados. A minha intenção é levar os alunos a construir pequenas narrativas, sintetizar informação de textos de tipologia diversificada e fazer uma exposição clara, preparada com antecedência. No domínio da interação oral, vou privilegiar atividades interativas centradas sobretudo na preparação, elaboração e apresentação de trabalhos académicos.

Margarida, que balanço faz até ao momento?

“O caminho faz-se caminhando” e ainda estamos a meio do percurso. Mas creio que  já existem indicadores que me permitem afirmar que no final deste primeiro módulo o balanço será positivo.

À data do início do projeto, os estudantes referiram, com insistência, o desejo de terem, nas aulas, momentos que propiciassem o esclarecimento das suas dúvidas mais prementes e o treino necessário para melhorar o seu desempenho na escrita. Esses momentos têm-se efetivamente multiplicado. Graças ao empenho que uma boa parte da turma coloca na realização das tarefas que lhes são pedidas, é possível vislumbrar ligeiros progressos. No entanto, é ainda cedo para saber se este esforço lhes permitirá suprir as suas graves carências e dar resposta às exigências que o seu percurso académico lhes impõe. De uma coisa, contudo, estou certa: não quero perder o comboio da esperança de que isso venha a acontecer.

Ana Suspiro

Voluntária SMV