Missão no Hospital Rural do Songo, Moçambique – Campanha de Cirurgias Gratuitas

Uma missão no Hospital Rural do Songo, em Moçambique, juntou uma voluntária da Ser Mais Valia e dois colegas da área da saúde desafiados por si a integrarem a missão, com um objetivo que foi além da prestação de cuidados imediatos: reforçar competências e promover a autonomia local. Através de ações de formação em áreas críticas, como anestesia, práticas de bloco operatório e suporte de vida, esta intervenção evidencia o valor de uma abordagem sustentável, centrada na capacitação das equipas locais e no impacto duradouro na qualidade dos cuidados de saúde.

O texto que se segue dá voz, na primeira pessoa, ao testemunho de Filomena Correia, que retrata a experiência vivida no terreno, os desafios enfrentados e a importância de um compromisso contínuo com o desenvolvimento das capacidades locais.

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Enquanto voluntária da Ser Mais Valia, senti que poderia ter um papel mais ativo na concretização de projetos com impacto real no terreno. Foi com esse propósito que apresentei a proposta para a realização de uma missão no Hospital Rural do Songo (HRS), em Moçambique, cuja ação tinha como finalidade a realização de cirurgias, sendo por isso um projeto inovador para a Ser Mais Valia.

A Campanha Cirúrgica decorreu entre 13 a 28 de fevereiro, exigindo uma preparação logística rigorosa, bem como uma estreita articulação com a equipa local do HRS, nomeadamente com a Dra. Elisa Gundana, diretora do hospital, e com os colegas que integraram a missão – o Professor Guilherme Tralhão, cirurgião, Diretor da Cirurgia da ULS de Coimbra e a Dra. Sónia Abrantes, anestesiologista.

O Professor Tralhão trouxe toda a sua experiência e liderança cirúrgica, enquanto a Dra Sónia Abrantes garantiu um suporte anestésico seguro e humano. Juntos, conseguimos não só prestar cuidados de saúde de qualidade, com recursos muito limitados, como também aprender uns com os outros e apoiar a comunidade local de forma eficaz.

O balanço da missão é extremamente positivo. Foram realizados 120 procedimentos cirúrgicos, abrangendo desde pequenas a grandes cirurgias, em doentes de todas as idades – desde bebés a idosos – provenientes de várias províncias, o que evidencia o alcance e a relevância da iniciativa.

Paralelamente, desenvolvemos ações de capacitação dirigidas aos profissionais do HRS, nomeadamente nas áreas de anestesia, Suporte Básico de Vida (SBV) e Suporte Avançado de Vida (SAV), bem como simulação de práticas de enfermagem em Bloco Operatório.

Ver o resultado direto do nosso trabalho na vida destas pessoas foi profundamente gratificante. Contribuir não só para o tratamento cirúrgico dos doentes, mas também para o fortalecimento das competências da equipa local, reforçou ainda mais a minha motivação para continuar envolvida em projetos solidários no Hospital Rural do Songo.

Para além do impacto imediato, importa reforçar a relevância da continuidade e sustentabilidade deste projeto no HRS. Só através de missões regulares, acompanhamento próximo e investimento consistente na formação das equipas locais será possível consolidar competências, garantir autonomia progressiva e melhorar, de forma duradoura, a qualidade dos cuidados prestados à população. A aposta na capacitação contínua, na partilha de conhecimento e na criação de rotinas seguras é essencial para que o impacto desta intervenção se prolongue no tempo.

Esta missão permitiu ainda, avaliação de Projetos de Melhoria Contínua implementados no BO na anterior missão em 2024, com impacto na organização, eficiência e qualidade dos cuidados prestados ao doente cirúrgico. Foi gratificante observar que quase 2 anos depois, as práticas por nós iniciadas continuam a ser desenvolvidas, com o empenho e envolvimento de toda a equipa do BO.

Deste modo, foi possível reforçar a relevância de um voluntariado estruturado e sustentável, enquanto modelo que permite não só a monitorização contínua do trabalho desenvolvido, mas também a sua adaptação e aperfeiçoamento permanente em função das necessidades locais.

Contámos com a generosa doação de várias empresas de dispositivos médicos, nomeadamente a Molnlycke, que nos forneceram luvas e batas cirúrgicas, campos operatórios, fios de sutura, antissépticos, próteses abdominais, material de anestesia, consumíveis imprescindíveis para a realização da campanha cirúrgica, e até um manequim para simulação de SBV e SAV.

Antes de terminar não podia deixar de destacar, com profundo reconhecimento, a excecional capacidade de dedicação, liderança e sentido de missão da Diretora do HRS, Dra. Elisa Gundana. A sua atuação firme, visionária e incansável tem
sido absolutamente determinante para a concretização destas missões, que se revestem de elevado valor humano e social.

Como nota final, fomos informados que depois de terminada a campanha e já regressados a Portugal, ainda chegavam doentes ao HRS para realização de cirurgias. O que significa que é necessário continuar apoiar e a desenvolver este tipo de iniciativas.

Esta missão foi, acima de tudo, um testemunho de que, com cooperação, dedicação e espírito de missão, é possível fazer a diferença – hoje, mas sobretudo no futuro, através de um compromisso sustentado com o desenvolvimento local.

Filomena Correia

Voluntária SMV