O voluntariado faz parte do percurso de vida de Guilherme Collares Pereira. Com uma carreira profissional ligada à inovação social, ao desenvolvimento sustentável e à criação de parcerias com impacto, nomeadamente no Grupo EDP e em diversos projetos de cooperação com países africanos, tem procurado colocar a sua experiência ao serviço de causas que promovem a inclusão e o desenvolvimento humano.
Na SMV, tem sido um voluntário muito ativo, contribuindo com o seu conhecimento e rede de contactos para fortalecer a capacidade da associação. Atualmente integra a Comissão Executiva dos 10 anos da SMV, onde tem desempenhado um papel relevante na preparação do programa e do dossier de patrocinadores, um instrumento fundamental para mobilizar apoios e consolidar parcerias que permitam continuar a expandir o impacto da organização.
Mas além da dimensão profissional e associativa, Guilherme é também uma pessoa de interesses diversificados, valorizando o equilíbrio entre o compromisso social, a aprendizagem contínua e os momentos de lazer. Acredita na importância de permanecer ativo ao longo da vida e vê no voluntariado sénior uma poderosa forma de participação cívica, transmissão de conhecimento e fortalecimento da coesão social.
A experiência, o conhecimento e a vontade de continuar a contribuir não têm idade. O percurso de Guilherme Collares Pereira mostra como o voluntariado sénior pode ser uma poderosa força de transformação social, capaz de ligar pessoas, organizações e gerações em torno de um objetivo comum: criar mais valor para a sociedade. Fomos conversar com ele.
AS(Ana Suspiro) O voluntariado tem marcado várias etapas da vida. Como nasceu essa vontade de colocar o conhecimento e experiência ao serviço dos outros?
Bem cedo! Fiz o liceu, no Colégio São João de Brito, e o lema da Companhia de Jesus, “Educar para Servir” sempre me acompanhou.
Depois o voluntariado foi surgindo de forma natural ao longo do meu percurso profissional, sobretudo a partir da convicção de que o conhecimento e a experiência que vamos acumulando ao longo da vida ganham ainda mais sentido, quando podem ser partilhados e colocados ao serviço de outros.
Nos últimos 20 anos da minha vida profissional, tive a oportunidade de trabalhar do Grupo EDP na área da inovação social, e no desenvolvimento de projectos sustentáveis. Sempre promovendo a construção de parcerias, conectando pessoas e organizações com desafios diferentes. Essas experiências ensinaram-me que para encontrar soluções é fundamental saber ouvir, estabelecer relações de confiança e juntar pessoas com competências e perspetivas diferentes. O sucesso está em “Fazer Com, e não Para”!
AS – A carreira esteve ligada à inovação social e ao desenvolvimento sustentável, incluindo projetos e contactos com diferentes realidades em África. Dessa experiência profissional, que aprendizagens trouxe e incorporou no seu trabalho enquanto voluntário?
O contacto com diferentes realidades e em diferentes continentes, nomeadamente em África, foi uma experiência muito marcante e ensinou-me, antes de mais, a importância de compreender os contextos locais e de não partir do princípio de que temos sempre as respostas.

Destaco uma resposta de intervenção inovadora, a um pedido feito pelo Eng.º António Guterres, na altura Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, ao Grupo EDP para apoiar financeiramente a compra de alimentos para os campos de Refugiados no corno de Africa. Propus-lhe, como contraproposta, e desenvolvi, uma iniciativa baseada na instalação de sistemas solares num campo de Refugiados no norte do Quénia, Kakuma, em que a energia elétrica produzida, substituiria a queima de fuel nos geradores do ACNUR para produção de eletricidade, libertando assim dezenas de milhares de euros gastos anualmente na compra de combustível, que poderiam agora ser utilizados pelo ACNUR, na compra de alimentos. Com um investimento de quase dois milhões de euros realizado pela EDP, a vida de 150.000 Refugiados foi positivamente impactada com as infraestruturas de acesso à energia, criadas nas áreas da: saúde, educação, agricultura, água e segurança.
Vídeo “Projeto-piloto Kakuma 2010”

O acesso à energia, é uma condição necessária, para quebrar o ciclo de pobreza em todo mundo.
Aprendi que projetos sustentáveis dependem muito da capacidade de envolver os beneficiários, organizações locais e parceiros, e ainda de criar relações de confiança e de construir soluções em conjunto. Aprendi também que os recursos são importantes, mas que o desenvolvimento de competências, a capacitação, a autonomia, e a capacidade de organização das pessoas beneficiarias, são o fator decisivo para que uma iniciativa tenha impacto duradouro.
AS – Com especial envolvimento na criação de pontes com empresas e fundações, como tem sido a sua adesão no apoio à SMV e quais os desafios desta abordagem entre o mundo empresarial e as organizações da sociedade civil?
A preparação dos 10 anos da SMV tem sido uma oportunidade particularmente interessante para procurar aproximar a associação de empresas, fundações e outras entidades que possam identificar-se com a nossa missão.
Acredito que esta aproximação deve ser encarada como uma parceria e não apenas como uma procura de financiamento. As empresas têm recursos, conhecimento, redes e capacidade de mobilização que podem ser muito relevantes para as organizações da sociedade civil. Por outro lado, estas organizações conhecem de perto problemas sociais e têm uma experiência e uma proximidade às comunidades que podem ser muito importantes para as empresas.
O desafio está em encontrar interesses comuns e construir relações em que exista valor para todas as partes, mas sobretudo para a causa que queremos servir. É necessário saber apresentar o trabalho da SMV de uma forma clara, demonstrar o impacto que produz e, ao mesmo tempo, compreender o que pode mobilizar e envolver cada potencial parceiro.
É precisamente aí que vejo o meu papel: ajudar a construir pontes, abrir portas e aproximar pessoas e organizações que possam, em conjunto, fazer mais e melhor.
Quando chega a reforma, não deixamos de ter capacidade para contribuir. Pelo contrário: temos experiência, conhecimento, contactos e, talvez sobretudo, tempo e disponibilidade para os colocar ao serviço dos outros e de causas em que acreditamos. Foi essa vontade de continuar a ser útil e servir, que me aproximou do voluntariado e, mais recentemente, da SMV.
AS – Ao longo da experiência na SMV, o que mais o tem surpreendido ou inspirado no trabalho realizado pelos voluntários e beneficiários da associação?
O que mais me tem impressionado é a combinação entre a vontade de ajudar e a capacidade de iniciativa que encontro nas pessoas envolvidas na SMV.
Há uma ideia, por vezes, de que o voluntariado sénior está sobretudo associado a pessoas que dão o seu tempo. Na realidade, encontro na SMV muito mais do que isso: encontro pessoas que partilham conhecimento, que assumem responsabilidades, que aprendem umas com as outras e que continuam a procurar novas formas de contribuir.
Também me inspira a diversidade das pessoas e dos percursos. Cada voluntário traz consigo uma experiência profissional e de vida diferente e essa diversidade é uma enorme riqueza para a associação.
Nestes cerca de dois anos, fui percebendo que o impacto do voluntariado não está apenas naquilo que cada pessoa faz individualmente. Está também nas relações que se criam, na confiança que se estabelece e na capacidade de transformar experiências individuais em conhecimento que pode ser útil aos outros.
AS – Defende frequentemente uma participação ativa após a vida profissional. Qual é a sua visão sobre o voluntariado sénior e que papel podem desempenhar os seniores na construção de uma sociedade mais solidária e intergeracional?
Vejo o voluntariado sénior como uma oportunidade e não como uma etapa de menor atividade. A passagem à reforma deve significar uma mudança de ritmo e de prioridades, mas não necessariamente o afastamento da participação na sociedade.
As pessoas que chegam a esta fase da vida possuem um património enorme de conhecimento, experiência profissional, relações humanas e capacidade de compreender problemas e encontrar soluções. Esse património não deve ser desperdiçado.
Ao mesmo tempo, o voluntariado não deve ser visto apenas como uma forma de os seniores darem aos outros. É também uma forma de continuarem a aprender, conhecer novas pessoas, desenvolver novas competências e manterem uma participação ativa na comunidade.
Acredito particularmente na dimensão intergeracional. A sociedade ganha quando diferentes gerações trabalham em conjunto: os mais experientes podem transmitir conhecimento e experiência, enquanto os mais jovens trazem novas perspetivas, competências e formas de olhar para o mundo. É dessa troca que podem nascer soluções mais ricas e uma sociedade mais coesa.
No fundo, acredito que a idade pode mudar a forma como contribuímos, mas não deve determinar a nossa vontade ou capacidade de contribuir.

Ana Suspiro
Voluntária SMV