2026 – Ano Internacional do Voluntariado

O voluntariado em Portugal tem evoluído ao longo de décadas, mas ainda carece de dados sistematizados e atualizados. O estudo da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES), coordenado pelo Dr. Rui Godinho, do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), oferece um retrato detalhado deste universo, permitindo compreender perfis, práticas e desafios do setor. Graças à gentileza da CASES, partilhamos aqui algumas das principais conclusões da Recolha e Análise dos dados sobre o Universo do Voluntariado em Portugal. Um agradecimento reconhecido à associada da SMV Elisa Santos que redigiu este texto com as principais conclusões do Estudo. Neste ano em que se celebra o Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável, estes resultados convidam a refletir sobre o papel, o reconhecimento e o futuro do voluntariado em Portugal.

Como é o Voluntariado em Portugal?

Esta pergunta encontra algumas respostas no estudo que a CASES realizou. Este trabalho académico realizado com o objetivo de auxiliar políticas públicas neste domínio, deixa a descoberto uma série de questões sugerindo que muito há a fazer tanto na avaliação como na organização do sector do voluntariado. Trazemos aqui algumas conclusões deste relatório e convidamos a uma leitura mais detalhada, para perceber até com alguns casos de estudo, em que ponto está Portugal neste Ano Internacional do Voluntariado.

Caracterização

O voluntariado em Portugal tem uma caracterização difícil. Por um lado, apesar de legislado já há algumas décadas, não existe uma recolha sistematizada de informação relativa ao voluntariado; por outro a prática de voluntariado tem, em muitos casos, um registo de informalidade, característica que tem a sua génese nas práticas caritativas tendo a Igreja sido a primeira instituição a prestar assistência voluntária inspirada no princípio cristão da caridade. É só na última década do século XIX, com a institucionalização do Serviço Social, que é feito um ponto de viragem no voluntariado. A este passo seguem-se outros que organizam e legislam a atividade voluntária, definindo conceitos e estabelecendo regras – direitos e deveres – para os diferentes atores.

Os dados de caracterização geral de voluntariado mais recentes são de 2018 e comparam com 2012, ou seja, são pré-pandemia, levando-nos a um retrato “difuso”, pouco atualizado, mas que nos pode dar pistas de reflexão.

Em 2018, nota-se uma mudança de perfil, onde o registo mais elevado se situa no escalão jovem (15-24), podendo concluir-se suspeitas do rejuvenescimento do voluntariado ou o aumento do voluntariado jovem que resulta de algumas políticas públicas, com um papel de destaque para o IPDJ e para o desenvolvimento do voluntariado no ensino superior. O nível de escolaridade é uma característica relevante sendo nos mais elevados (superior) que se regista maior peso dos voluntários em Portugal e nos níveis mais baixos o menor peso de voluntários.

Em termos gerais, Portugal posiciona-se como o país que apresenta menor dinâmica de voluntariado do grupo de países do sul da Europa e apenas se destaca de países com barreiras políticas e culturais ao voluntariado (como a Albânia, Turquia, Roménia e países da zona dos Balcãs).

Estudo CASES

Apesar de não existirem dados recentes, e não se conheça o número certo de voluntários regulares existentes em Portugal existem estimativas que sejam mais de um milhão e quinhentos mil. Só as 48 entidades que integram a Confederação Portuguesa do Voluntariado representam cerca de setecentos mil voluntários.

Para a realização do estudo, e em virtude de não existir uma base nacional com todas as organizações e agentes com práticas de voluntariado, foram previamente identificadas, Organizações Promotoras de Voluntariado (OPV) a quem foi solicitada a um questionário online.

As respostas recolhidas demonstram que, nestas OPV o voluntariado é realizado maioritariamente por mulheres, com níveis de qualificação elevados, distribuindo-se entre estudantes, reformados ou trabalhadores por conta de outrem. A distribuição etária é equilibrada, mas destaca-se a presença relevante de pessoas com mais de 65 anos. De notar que a maioria das OPV não envolve pessoas sem habilitações completas, reforçando o predomínio de participantes com maior escolaridade.

Algumas das entidades auscultadas indicaram uma perceção de um voluntariado jovem que normalmente está associado a causas e com uma maior limitação de tempo e de compromisso, preferindo atividades com menores exigências em termos de regularidade ou prolongamento no tempo. Existem, contudo, outras OPV que referem um crescente interesse para um voluntariado de competências e que lhes pode acrescentar (aos jovens) alguma coisa em termos profissionais.

O leque de áreas temáticas abrangidas pelas atividades de voluntariado é bastante diversificado, ainda que com uma concentração nas áreas da ação social e educação e Infância e Juventude. Também se destacam iniciativas direcionadas para a Terceira Idade, Saúde e Desenvolvimento Comunitário. Áreas mais específicas ou especializadas, como Defesa do Consumidor, Religião ou contexto Prisional, têm menor expressão. Esta diversidade evidencia a amplitude do trabalho voluntário em Portugal.

As atividades desenvolvidas pelas pessoas voluntárias são bastante diversificadas, destacando-se a distribuição de alimentos, roupas ou kits de higiene, o apoio em campanhas de doação (alimentos, roupas, brinquedos etc.), as atividades recreativas, desportivas, lúdicas, o acompanhamento de idosos, pessoas com deficiência, crianças, migrantes ou pessoas em situação de rua, o apoio e reforço escolar, educação ambiental/ações de sensibilização ambiental, o apoio emocional e escuta ativa , o apoio na organização de eventos e campanhas e o apoio a associações locais em bairros ou aldeias. O voluntariado também assume funções técnicas e administrativas, mostrando que os contributos vão muito além do apoio social tradicional.

Vale a pena notar que a maioria das OPV desenvolve atividades de voluntariado de forma muito frequente ou regular, sobretudo com ações semanais ou mais intensivas, representando 55,2% das respostas. Cerca de um quinto realiza atividades mensais e 18% promove ações ocasionais ao longo do ano. As iniciativas sazonais, ligadas a momentos específicos, são menos comuns (7,6%). Estes dados mostram que o voluntariado tende a ser uma prática contínua regular na maioria das OPV, ou seja, os voluntários assumem compromissos de regularidade e cumprem esses compromissos.

Desafios para o futuro do Voluntariado em Portugal

Melhorar a integração, organização e retenção de pessoas voluntárias, são os grandes desafios que se colocam às organizações que tendem a assumir uma gestão mais profissionalizada do voluntariado, na expetativa de melhorar a qualidade das suas intervenções.

A melhoria dos mecanismos de integração e apoio são considerados essenciais para a retenção, assim como a utilização de tecnologia para promover novas formas para comunicar com as pessoas voluntárias e acompanhá-las (reuniões online, formação online, registo de atividades…). Por outro, avaliar o impacto do voluntariado é um dos aspetos mais desejados paralelamente à avaliação do trabalho das pessoas voluntárias, o que reforça o desejo e o percurso de profissionalização do setor.

Uma dimensão de análise considerada importante pelos stakeholders do presente estudo é a importância dada ao voluntariado e o seu reconhecimento público. Os resultados apontam para que seja a pessoa voluntária o principal motor da sua importância, assim como a comunidade e de forma menos expressiva as Organizações, sendo notória a ideia de que existe falta de reconhecimento institucional, especialmente ao nível da comunicação social e Estado central.

A análise de fatores com maior contributo para o desenvolvimento do voluntariado permite apontar algumas propostas: a) o reconhecimento das pessoas voluntárias e das atividades de voluntariado desenvolvidas; b) a criação de uma bolsa de tempo por parte das entidades empregadoras (desenvolvimento do voluntariado corporativo); c) o financiamento e recursos para apoiar as pessoas voluntárias.
Paralelamente a profissionalização de gestão de voluntariado e a melhoria dos sistemas de regulação, monitorização e avaliação do voluntariado (nas OPV e no país) revelam-se como medidas essenciais para melhorar a qualidade do trabalho realizado – para os voluntários e para a sociedade.

 

Elisa Santos

Voluntária da Ser Mais Valia