Quem somos, o que fazemos – Maria Teresa Santos

Maria Teresa Santos, atual vice-presidente da Ser Mais Valia.

Doutorada em Filosofia da Educação é docente na Universidade de Évora.

Alia a sua vasta experiência docente a um forte compromisso social, no âmbito da educação para a cidadania e do mentoring intercultural.

Nesta entrevista partilha connosco a sua visão estratégica para o mandato em curso e os desafios do voluntariado sénior.

GP -(Graciela Pinheiro)  Como surgiu a sua ligação à Ser Mais Valia (SMV) e o que a motivou a assumir a vice-presidência?

A ligação a Ser Mais Valia foi inesperada. Uma colega telefonou-me e perguntou se queria apoiar o programa Mentoring na Universidade de Évora. Desconhecia a associação e estava tão ocupada com aulas e projetos que me interroguei sobre a viabilidade de encaixar mais uma atividade. Mas refletindo um pouco mais, o mentoring era uma prática que sempre e naturalmente tinha integrado na docência: apoio, orientação e acompanhamento dos estudantes de licenciatura, doutoramento e pós-doutoramento. Então, qual a diferença? A SMV estava mais focada nos jovens estudantes provenientes de África, a prática estava desenhada numa perspetiva alargada a todas as instituições nacionais e a experiência era partilhada e discutida em conjunto. Este ponto ― partilha de tarefas e processos ― foi decisivo para aderir à SMV.
A motivação para assumir a vice-presidência foi de ordem distinta. Quando fui contactada, em jeito de auscultação, surgiu-me de imediato a palavra “risco”. Estava há pouco tempo na SMV e não conhecia as pessoas a ponto de aderir a uma equipa de direção. O receio não era infundamentado. A experiência que tinha de participar ou dirigir equipas levara-me a separar membros que visam interesses pessoais e membros que têm claro sentido dos objetivos e do bem-comum. E, de facto, não queria (nem quero) insistir em experiências decetivas ou perder tempo e energia em diplomacias de mitigação. Por isso, “não, mas muito agradecida pelo convite” era a resposta mais razoável. Demorei a pensar a proposta de integrar a equipa, tanto mais que estou no ativo. O que sopesou na decisão foi uma espécie de imagem invertida: se todas as pessoas disserem “não”, então como é que se constituem os órgãos da SMV? Portanto, assumi a vice-presidência como um compromisso em regime temporal rotativo: alguém tem de arriscar integrar a equipa: agora eu e logo a seguir outra pessoa. Mas a experiência, e isto importa ressaltar, tem sido extraordinária. Para além de estar a conhecer as complexidades próprias de cada vertente da SMV, tenho aprendido (e também surpreendido) como se alinham expectativas e definem responsabilidades de modo inclusivo.

GP – De que forma o seu percurso profissional enriquece o seu papel na gestão atual da direção?

Ser professora e membro de vários órgãos académicos tem-me advertido para a importância de uma ética do cuidado. Uma ética da atenção relacional e da resposta concreta. Embora os normativos comuns sejam fundamentais para evitar as exclusões e desagravar vulnerabilidades, importa atender empaticamente a cada situação e a cada pessoa. Isto fui aprendendo ao longo do percurso profissional e isto tem expressão na gestão da atual direção. Imagine-se o contrário: a direção de uma associação de solidariedade social sem suporte numa ética do cuidado. É como se tal associação já estivesse minada internamente.

GP – A SMV prova que a reforma é apenas o início de um novo capítulo. Como define o conceito de ” mais valia” que os voluntários séniores qualificados trazem à sociedade?

Sénior já sou; reformada, ainda não. Falta pouco. Esta pergunta é interessante, pois quando tive conhecimento da associação não consegui encontrar sentido na relação entre “mais valia” e “sénior”. É que fixei uma definição para “mais valia” nas aulas de Introdução à Política, a seguir ao 25 de Abril: trabalho excedentário não pago que se transforma em lucro para alguém. Soa a exploração da fase tardia da vida. Quase que foi necessário fazer o pino para sair desta definição. Salvou-me a ética. Esta “mais valia” corresponde a um valor humano que se manifesta desinteressadamente e concretiza na vida comunitária. É algo que dá tempo ao tempo e excede o expectável para um sénior (supostamente sossegado e acomodado); é um desafio para acrescentar mais valor humano na comunidade.

GP – As parcerias são descritas como metodologia preferencial da SMV. Como responsável da área das Parcerias e Financiamentos, o que espera alcançar a curto prazo nesta área?

Tenho de confessar que a “minha vice-presidência” é repartidíssima pelos outros membros da SMV, pelo que não me atrevo a falar no singular. Logo, o que esperamos alcançar a curto prazo é alguma sustentabilidade, ou seja, que o “curto prazo” deixe de ser uma constante avulsa e se estenda a “médio prazo”. Em termos pragmáticos, é muito importante saber com quem contar e com quanto contar. Por outro lado, manter e fazer parcerias a fim de garantir financiamentos para as diversas atividades é um “curto prazo” constrangedor. Por exemplo: como pagar viagens?; como editar publicações?; … Sublinha-se que a SMV tem não só projetos de continuidade e projetos pontuais, como também tem projetos de proximidade territorial e projetos de distância. Uns e outros têm necessidades específicas e requerem parcerias e financiamentos distintos. Portanto, “curto prazo” significa garantia “aqui e agora” de realização do projeto ou de uma fase dele. Desagradável seria frustrar a boa-vontade e a expectativas de quem projeta e está disponível para os outros.
Por isso, a resiliência e a ousadia estão na base da metodologia. Há que estar atento a possibilidades de parceria e financiamento, auscultar, aceitar “sins” e “nãos” e voltar a auscultar.

GP – Quais são os maiores desafios logísticos e financeiros que a direção enfrenta atualmente para manter as missões e projetos ativos?

De certo modo, a resposta ficou expressa na resposta anterior. A atualidade mundial é de contenção económica, pelo que não só é mais difícil receber apoios de ordem financeira como também é mais comum virem pedir apoio à SMV. O grande desafio, neste campo, está em manter projetos de continuidade, apoiar projetos pontuais e reservar recursos para novos projetos.

GP – A SMV celebra uma década de existência. Como imagina a SMV daqui a uns anos no panorama da solidariedade e cidadania?

A chave hermenêutica para o futuro é a esperança, sem ignorar que a desesperança nos entra pelos olhos adentro. Espero da SMV capacidade para configurar os seus projetos e se adaptar às carências do mundo que apontam para a ecologia global (humana, ambiental, cultural e de práticas económicas). Espero que a SMV se fortaleza na ética do cuidado mútuo, corresponsável e afetivo, e nas linhas orientadoras da ética da justiça.

GP – Se pudesse lançar um apelo direto aos leitores desta newsletter – potenciais parceiros ou doadores- que tipo de colaboração prioritária a SMV procura neste momento?

Vir, ver e lançar-se na onda da solidariedade.

 

Graciela Pinheiro
Voluntária da Ser Mais Valia