Do estigma (que vive fora e dentro de nós) à ação

A nossa sociedade precisa de reflexão crítica e ação para que quem ficou à margem, como muitas pessoas seniores mas não só, volte a encontrar o entusiasmo e a determinação para se fazer ouvir.

O empenho da associação Ser Mais Valia vai nesta direção. Os cidadãos e cidadãs com mais de 55 anos que a compõem, têm como primeiro objetivo  “rentabilizar os seus conhecimentos, competências e experiências profissionais em projetos de cooperação e desenvolvimento, num exercício ativo de direitos e deveres de cidadania e de intervenção social”, conforme se lê na sua página inicial. Parece-me que seja este um primeiro passo para que se crie um espaço de reflexão crítica sobre os múltiplos significados de ‘ser sénior hoje em Portugal, e que se tenha em conta a vertente prática desta reflexão para, no caso concreto, projetos de cooperação e desenvolvimento, e em outros casos outros âmbitos e outras áreas de intervenção.

A associação entre o conceito desenioridade’ e ideias de fraqueza, doença ou até inutilidade é, infelizmente, património comum na nossa sociedade. Esta associação cria um preconceito e um estigma que se revelam poderosos e resistentes à mudança. Há, contudo, esperança. Este texto pretende ser um contributo para a mudança, focado na necessidade de reconhecer as diversas formas de originar preconceitos e estigmas, e de os combater. São necessárias, para o efeito, uma postura intelectual crítica para entender e uma postura assertiva face a discursos e ações que alimentam a marginalização dos alvos atingidos.

Comecemos pela necessidade duma postura intelectual crítica perante a difusão dos estigmas em torno da senioridade. O chamado idadismo alimenta-se de crenças que têm vindo a fundamentar e legitimar uma forma perversa de olhar para o ciclo de vida. Esta perversão resultou de forma muito evidente nas culturas ocidentais, devido à sua história social, cultura, política e económica. O domínio duma cultura económica virada para produção e consumo de massa,  dentro dum sistema global que premia a rapidez em detrimento duma reflexão séria e crítica sobre o futuro (sustentável) das sociedades é, a meu ver, o principal motor dos processos de marginalização. O modelo socioeconómico que subjaz ao funcionamento das nossas sociedades acabou por afastar as pessoas que pelas mais diversas razões, incluindo a idade, não cumprem requisitos mínimos de adaptação aos ritmos frenéticos de hoje. Ao sistema socioeconómico juntou-se o sistema político que, em muitos casos, tem vindo a reforçar esses estigmas por meio de medidas e políticas públicas paternalistas ou, na pior das hipóteses, injustas. Em suma, a marginalização e o isolamento dos seniores tem vindo a ser condicionada por um reforço difuso de gestos e palavras que contribuem diariamente para isolar quem se encontra em situação de vulnerabilidade.

Há um fator, referido em título, que quero aqui destacar: a internalização do idadismo pelos seniores. Frantz Fanon, intelectual pós-colonialista, descreveu na sua obra “Pele Negra Máscara Branca” o processo de internalização do preconceito e do estigma por parte das populações colonizadas pelos brancos. A ação do estigma é de tamanha potência que os sujeitos alvo acabam por acreditar nele e se tornar “portadores” do mesmo. Existe portanto uma condição de permeabilidade interna ao estigma que invalida a afirmação duma contraparte ao discurso violento da marginalização. A necessidade de agir tem, portanto, de ser pensada na dupla vertente de acção: para fora e para dentro das “vitimas” do estigma.

Falemos agora  do combate ao idadismo, um combate que deve ser pensado tanto em relação aos que de fora estigmatizam a senioridade, como em relação àqueles seniores que perderam, ou estão a caminho de perder, entusiasmo e proatividade apenas por estarem envelhecidos. Este é um combate que deve partir das razões discutidas acima em relação à vertente socioeconómica, politica e social, bem como à sua internalização.

Ao entendimento das razões devem seguir-se estratégias nos diversos âmbitos de ação. A associação Ser Mais Valia é o exemplo de uma possibilidade de ação.

 

 

Roberto Falanga

Investigador de Pós-Doutoramento
ICS UL