Em 2026 voltaremos a ter, pela segunda vez, um ano internacional dedicado ao voluntariado. Por decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas, desta feita a denominação escolhida é: Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável. Para uma associação como a Ser Mais Valia, dedicada ao voluntariado e ao desenvolvimento, este poderá ser um ano particularmente significativo.
Comecemos pelo que pode bem estar na génese da proclamação deste Ano Internacional: a lentidão com que os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável estão a ser cumpridos. De acordo com António Guterres, Secretário-Geral da ONU, “… temos de enfrentar uma realidade difícil: apenas 35% das metas dos Objetivos Globais estão no caminho certo ou a progredir moderadamente. Quase metade está a avançar muito lentamente. E 18% estão a retroceder. (…) Com cinco anos restantes, é hora de converter as faíscas da transformação em uma chama de progresso. Vamos cumprir com o desenvolvimento – para as pessoas e para o planeta”[1].
De acordo com Administrador do PNUD, Achim Steiner “O Ano Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável em 2026 é um apelo aos Estados-Membros da ONU para que tornem o voluntariado uma parte integrante dos seus caminhos de desenvolvimento para impulsionar os Objetivos Globais — e um reconhecimento de que somente através da ação coletiva e da solidariedade podemos reunir forças para enfrentar os desafios que afetam a todos nós”[2].
Aqui temos mais um reconhecimento da importância do voluntariado, de facto, das pessoas voluntárias! As mudanças que o nosso Planeta e as nossas comunidades precisam, que são profundas e urgentes, não serão conseguidas sem o envolvimento de muitos de nós, e esse envolvimento tem vindo – e poderá vir ainda mais – através do voluntariado. Estamos, pois, perante um apelo fortíssimo à nossa participação, à nossa Humanidade. Disse-se frequentemente durante os anos da pandemia COVID 19 que “estamos todos no mesmo barco” – e este barco precisa que muitos dos seus passageiros o façam andar na direcção que nos beneficia a todos e à nossa casa comum.
Como disse António Guterres nesse mesmo discurso, “As pessoas ganham quando canalizamos a nossa energia para o desenvolvimento”. Ganham as pessoas “outras” e ganhamos nós mesmos, como sabe bem quem pratica o voluntariado! Ganham as pessoas não só pela qualidade de vida que podemos ajudar a trazer ao nosso mundo, mas também pela construção contínua e “humana” do nosso mundo interior, de quem nós somos. A prática da participação, da dádiva, do serviço, do voluntariado é igualmente importante e urgente para o nosso próprio desenvolvimento humano, tanto mais que os tempos nos podem fazer sentir impotentes e levar-nos a uma certa indiferença e foco na nossa agenda de sobrevivência pessoal e manutenção de uma aparência de segurança.
Quando damos das nossas competências, da nossa energia, do nosso tempo – na verdade, da nossa vida! – estamos a exercitar e a aprofundar o que há de melhor na humanidade, deixando às próximas gerações não só um mundo um pouco melhor, como um legado mais rico para continuarem a construí-la. E as gerações que gerámos e a quem já estamos a entregar o futuro da humanidade muito precisam destes sinais que lhes podemos dar com a nossa vida e com o nosso serviço ao bem comum, sinais de esperança para um futuro que se lhes anuncia muito desafiante.
E porque há o perigo de ficarmos crescentemente paralisados pela magnitude dos desafios que se atropelam tragicamente nos nossos noticiários, deixamos o apelo a que cada um de nós, cada uma das nossas organizações e projectos, possa ser um pequeno – mas significativo – contributo para animar essa esperança e construir a mudança, porventura menos visível nos tempos mais próximos, mas com o potencial do efeito “ripple”, ou das ondas que uma pequena pedra pode causar quando atirada a uma superfície de água estagnada. Que 2026, o Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentado seja o ano em que aumentamos significativamente o investimento pessoal e organizacional no futuro do nosso planeta e da nossa Humanidade.
[1]
https://www.linkedin.com/posts/antonio-guterres_globalgoals-hlpf-activity-7353071432328773632-hAxC?utm_source=share&utm_medium=member_ios&rcm=ACoAAACfMEYBeGkLaFoaNsxHTewWAHl7KVk5OsI
[2] https://www.unv.org/pressrelease/un-general-assembly-proclaims-2026-international-year-volunteers-sustainable
Alfredo Abreu
Membro da Direcção, Confederação Portuguesa do Voluntariado