Há um bairro que nos é muito querido em Oeiras: o Moinho das Rolas, que este ano celebra 27 anos de existência. A SER MAIS VALIA (SMV) mantém, há vários anos, uma ligação próxima com este bairro, através de uma parceria que faz parte do ADN de ambas as instituições – a SMV e a Associação Moinho em Movimento.
Ao longo destes anos, esta parceria foi-se transformando e dando lugar a novas formas de participação. Atualmente, a SMV está presente através de um grupo de voluntários que dinamiza diferentes áreas e ateliers: «TIC», «Nós em Movimento», «Letras com Artes» e «Recolha do Crioulo». Este ano, juntam-se ainda dois novos projetos – «Oralidade e Histórias de Vida» e «Saúde e Bem-Estar» – dinamizados por novos voluntários.
Neste ano de aniversário, impõe-se recordar alguns dos momentos mais relevantes da origem e da caminhada de quase três décadas deste bairro. Para nos ajudar a conhecer melhor essa história, conversamos com Sandra Borges, presidente da Associação Moinho em Movimento, uma das pessoas que esteve no centro da sua fundação e que, desde então, tem desenvolvido um trabalho notável nas diferentes dinâmicas da comunidade.

Sandra, o seu amado bairro celebrou há pouco, de uma forma muito festiva, quase 3 décadas de existência. Como nasceu este bairro, qual é a sua história?
O Bairro Moinho das Rolas nasceu há 27 anos e, para falar da sua história, não podemos falar apenas de casas ou de um território. Temos de falar, acima de tudo, das pessoas que aqui construíram as suas vidas, criaram os seus filhos e fizeram nascer uma verdadeira comunidade.
Ao longo destes 27 anos, o bairro foi crescendo e transformando-se com as pessoas que nele vivem. É um território marcado pela diversidade, por diferentes culturas e percursos de vida, mas também por relações de vizinhança muito fortes. Muitas das crianças que cresceram aqui são hoje adultos, pais e mães, e alguns continuam ligados ao bairro e à comunidade de diferentes formas.
Como em muitos bairros, também tivemos e continuamos a ter desafios. Mas nunca gostei que a história dos nossos bairros fosse contada apenas a partir das dificuldades, dos problemas ou dos estigmas. O Moinho das Rolas é muito mais do que isso. É feito de pessoas trabalhadoras, de famílias, de jovens com sonhos, de crianças que precisam de oportunidades e de uma comunidade que, muitas vezes com poucos recursos, sempre encontrou formas de se apoiar.
É também dessa vontade de fazer mais pelo nosso território que nasce a Associação Moinho em Movimento. Nasceu de dentro da própria comunidade e da convicção de que não podemos ficar apenas à espera que as respostas cheguem até nós. Também temos capacidade para nos organizar, participar e construir soluções.
Por isso, quando celebramos os 27 anos do bairro, não estamos apenas a assinalar uma data. Estamos a celebrar 27 anos de vidas, memórias, crescimento, resistência e pertença.
Existe na população do bairro um orgulho muito próprio, muito festivo e muito solidário. Como interpreta esse orgulho?
Esse orgulho vem, precisamente, do sentimento de pertença. Quem cresce num bairro como o nosso percebe muito cedo o significado da palavra comunidade. Há uma ligação entre as pessoas que vai muito além de morarmos na mesma rua ou no mesmo território. Conhecemos as histórias uns dos outros, vimos crianças crescer, acompanhámos famílias nos momentos bons e nos momentos mais difíceis e aprendemos que, muitas vezes, quando alguém precisa, é a própria comunidade que se mobiliza primeiro.

E depois temos esta nossa forma muito própria de celebrar. A música, a dança, a comida, o futebol, as nossas diferentes culturas e a alegria de estarmos juntos fazem parte da identidade do bairro. O aniversário mostrou isso de uma forma muito bonita: várias gerações, diferentes nacionalidades e culturas, associações, parceiros, amigos e famílias reunidos no mesmo espaço.
Mas, para mim, esse orgulho tem também outro significado. Durante muitos anos, os bairros foram frequentemente olhados de fora apenas através dos seus problemas. Por isso, ocuparmos o espaço público de forma positiva, mostrarmos os nossos talentos, a nossa cultura, os nossos jovens e aquilo que somos capazes de construir juntos é também uma forma de contrariar estereótipos.
É dizer: nós estamos aqui, fazemos parte deste território e também temos uma história que merece ser contada. Foi por isso que escolhemos uma frase que representa muito bem aquilo que queremos transmitir: Um bairro. Diversidade. Uma só comunidade.
A Associação Ser Mais Valia é parceira do bairro já há vários anos e vive as suas alegrias. O que pensa dessa parceria enquanto filha do bairro e presidente da Associação Moinho em Movimento?
Enquanto filha do bairro e presidente da Associação Moinho em Movimento, vejo esta parceria com enorme carinho, mas também com muita gratidão. As parcerias que verdadeiramente fazem diferença numa comunidade são aquelas que não aparecem apenas num determinado momento ou para realizar uma atividade. São as que criam relações, conhecem as pessoas, acompanham os processos e permanecem.
A Ser Mais Valia tem feito esse caminho connosco. Ao longo dos anos tem partilhado momentos, acompanhado iniciativas e vivido também as alegrias da nossa comunidade. E isso é muito importante, porque trabalhar em parceria não deve significar fazer “para” a comunidade, mas sim fazer com a comunidade.
É exatamente esse o princípio que procuramos seguir na Associação Moinho em Movimento. Queremos parceiros que reconheçam os recursos, os conhecimentos e as capacidades que já existem no território e que nos ajudem a criar mais oportunidades para as nossas crianças, jovens, famílias e população em geral.

Enquanto presidente da Associação, valorizo muito esta relação porque sabemos que nenhuma associação consegue transformar um território sozinha. Precisamos de criar pontes entre a comunidade, as associações, as instituições e o poder local.
Mas enquanto filha do bairro há ainda uma dimensão mais emocional. É muito especial perceber que existem pessoas e organizações que não vivem necessariamente aqui, mas que aprenderam a gostar do Moinho das Rolas, que celebram connosco as nossas conquistas e que reconhecem o valor das nossas pessoas.
No fundo, é isso que desejamos das nossas parcerias: que não venham apenas conhecer o bairro, mas que caminhem connosco. Porque é assim que acreditamos que se constrói comunidade: com proximidade, confiança, participação e relações que permanecem no tempo.
As respostas de Sandra Borges permitem-nos conhecer melhor o bairro, a sua energia própria e a forma como a parceria com a SMV se foi construindo ao longo dos anos. Uma presença que se concretiza tanto nas aulas e ateliers como nos encontros e momentos festivos, sempre com uma forte ligação à comunidade. Entre essas ações, a referir o trabalho de ensino da língua portuguesa, uma das vertentes da intervenção da SMV no Bairro, que foi recentemente dado a conhecer pela RTP no programa O Meu Bairro Também é Deste País a que se pode aceder por aqui.
A população abrangida pelo projeto da SMV é constituída maioritariamente por mulheres mais velhas, reformadas, que assumem um papel muito ativo na vida do bairro. Com enorme disponibilidade e boa vontade, colaboram nas mais diversas atividades – da cozinha ao batuque, dos doces e salgados às decorações – revelando uma polivalência, criatividade e vontade de participar que são parte essencial da dinâmica da comunidade.
A SMV faz, assim, parte da vida do bairro, numa parceria construída ao longo dos anos e que tem produzido resultados muito positivos. Porque, no fundo, é este o pincípio que nos orienta: Não fazer para a comunidade, mas fazer com a comunidade.

Isabel Amorim
Voluntária SMV no bairro Moinho das Rolas