Nesta edição da nossa rubrica cruzamos o olhar com o Pedro, engenheiro eletrotécnico e residente em Aveiro. Associado e voluntário da Ser Mais Valia, coloca seu conhecimento técnico em missões no âmbito da informática. Em 2017 esteve em Angola onde regressou este ano, e, várias vezes na Guiné-Bissau. Fomos conversar com Pedro. Uma conversa sobre as suas motivações, os desafios do terreno e as memórias mais marcantes do seu percurso voluntário. Fica o registo.
GP (Graciela Pinheiro) – Pedro, como nasceu o teu interesse pelo voluntariado e como chegaste à Ser Mais Valia?
A semente do voluntariado estará na educação católica e principalmente no escutismo. Anos mais tarde, com a reforma antecipada, recusei cruzar os braços. Colaborei com o Banco Alimentar e candidatei-me ao Museu de Santa Joana, em Aveiro. Ali, no restauro de talhas e catalogação de peças, apliquei o desenho técnico da minha juventude e confrontei-me com a realidade do compromisso social, vendo muitos desistirem face aos horários necessários a cumprir.
Foi nesse ambiente que criei grandes amizades e partilhei o desejo de fazer algo em África. Um dia, a Conceição trouxe-me um recorte de jornal: “Pedro, isto é para ti”.
E foi assim, querida Graciela que respondi ao projeto 55+ da Fundação Calouste Gulbenkian, que viria a dar origem à SMV.
GP – Na SMV fazes parte do Grupo de Literacia digital e da equipa do projeto EscritAfricando. No entanto, o teu trabalho voluntário estende-se a outras organizações.
Queres dizer-nos o que fazes na Ria de Aveiro?
Ui, a Ria de Aveiro! É o projeto da minha reforma, um verdadeiro “projeto de uma vida”. Quando terminei a atividade profissional, cruzei-me com uma iniciativa de vela para pessoas com deficiência motora. Um amigo era o visionário do projeto e convidou-me para ajudar aos sábados de manhã. Só vi um sentido para a resposta: “Bora lá, o que é preciso fazer?” Ali defini a minha prioridade de agenda.
Mais tarde, o projeto expandiu-se para a deficiência intelectual e para mais dias da semana. Reafirmei a minha disponibilidade, salvaguardando apenas que, uma ou duas vezes por ano, teria de me ausentar para as missões da SMV nos PALOP.
Desde então, vieram formações, certificações e candidaturas a programas de apoio como o BPI Capacitar, Cidadãos Ativos (Gulbenkian) e, agora, a Portugal Inovação Social. Hoje vamos para a Ria cinco dias por semana, de manhã e à tarde, com uma equipa completa de monitores e treinadores. É um laboratório vivo onde descobrimos a comunidade da deficiência e a verdadeira inclusão. Um espaço cheio de oportunidades para servir, mas também onde podemos “aprendermo-nos”.

foto: Sporting Clube de Aveiro; fonte: sportingcaveiro.pt
GP – Antes da tua experiência na Guiné-Bissau com a SMV, estiveste em Angola com outra Organização. Podes falar-nos dos objetivos que te levaram até la?
Como profissional independente após a minha reforma antecipada, colaborei, entre 2014 e 2015, num projeto empresarial de requalificação da rede nacional de fibra ótica em Angola, trabalhando principalmente em Luanda, na cidade.
Foi precisamente nesse período que frequentei a formação da Fundação Calouste Gulbenkian para o projeto “55+”, num fim de semana em regime de internato, em Baião. Algumas das palestras e vídeos apresentados foram de ir às lágrimas e marcaram-me profundamente. Senti, naquele momento, que me estava a estrear num mundo completamente novo.
GP – De que forma essa vivência em Angola moldou a tua visão sobre a cooperação para o desenvolvimento?
As minhas idas a Luanda foram profissionais, mas levei na bagagem a formação da SMV. Foi essa base que me ajudou a digerir o impacto do que via e a potenciar a interação com as pessoas.
Procurava o relacionamento constante: passava os sábados na Baía, no Clube da Ilha onde o amigo Mateus faz um trabalho de relevância social com as atividades náuticas e aos domingos a percorrer as comunidades.
Em 2017, fiz a minha primeira missão em Calumbo (SMV/Rosto Solidário), dando formação de literacia digital a professores e militares, atualizei e uniformizei o software do Centro de Recursos para servir a comunidade em segurança, num cenário de grande escassez de meios.
Ali, a maior preocupação era a fome. Pouco tempo após a minha missão, implementaram a “sopa nutritiva”.
Sobre a Cooperação para o Desenvolvimento, temos de ter consciência do imenso trabalho e investimento que terá de ser feito.
GP – Nas tuas missões na Guiné-Bissau o foco principal tem sido a literacia digital. Qual era o cenário que encontraste no terreno em termos de acesso à tecnologia e competências digitais?
Há ainda muitíssimo por fazer. O cenário que encontrei nas missões em Bafatá (com professores) e em Cacine (com alunos e professores do Liceu) revelou salas de aula operacionais, mas com sérias dificuldades no acesso à internet e um público-alvo com grandes barreiras na utilização básica do computador. Ambas as escolas acolhem cerca de 500 alunos de vários graus de ensino.
Perante esta realidade, surgem diferentes abordagens no terreno e todas elas válidas. Em Bafatá, o Padre Lúcio defendia que a informática deve começar pelos professores, servindo a literacia mediática como um suporte transversal a qualquer disciplina. Já em Cacine, na Escola Betel, o Pastor Valberto conseguiu avançar com a informática direta para os alunos do 6º ano.
Graciela, deixa-me referir um aspeto muito importante e que gostava que fosse com as palavras da nossa amiga Kátia Casimiro, da sua crónica na última edição da nossa Montra Digital: O acesso desigual à tecnologia entre países e regiões pode criar novas assimetrias no ensino. Enquanto alguns estudantes beneficiam plenamente destas ferramentas, outros continuam a enfrentar limitações básicas de conectividade.

GP – Podes partilhar connosco um momento ou uma história de superação que te tenha marcado, particularmente, durante estas formações digitais?
Um dos momentos que mais me marcou envolveu a Linda, uma formanda do turno da manhã em Cacine, Escola Betel. Destacava-se por ser uma menina graciosa e sempre com um sorriso contagiante no rosto. A certa altura começou a chegar atrasada ou pedia para sair mais cedo.
Com o início da safra do caju, os adultos da família partiam para o campo de madrugada. A Linda levantava-se cedo para preparar toda a casa, preparar a comida e caminhar mais de uma hora para a entregar no campo. No entretanto fazia as nossas sessões de informática. A sua história é o reflexo perfeito da superação. Mostra como por trás daquele sorriso constante, existia um sentido de responsabilidade e um esforço invisível para não perder a oportunidade de aprender. Marcou-me profundamente ver que, para ela, a formação digital era um espaço pelo qual valia a pena lutar todos os dias.
GP – Diz-se, frequentemente, que quem vai em missão recebe mais do que aquilo que dá. O que é que trouxeste de mais valioso de Angola e da Guiné-Bissau para a tua vida pessoal?

Um grande incómodo. As desigualdades globais têm de fazer parte do mundo novo. Andar no terreno é bem diferente das notícias que ouvimos sentados comodamente no sofá.
GP – Para quem está a pensar reformar-se ou tem tempo disponível e gostaria de se juntar à SMV que mensagem gostarias de deixar?
Já ontem era tarde!
Graciela Pinheiro
Voluntária da Ser Mais Valia