Ângelo Soares, reside na Maia. Após 36 anos de experiência profissional na área de Engenharia, onde desempenhou várias funções, decidiu reformar-se, pois havia mais trabalho que gostaria de fazer, ainda que não remunerado. Membro fundador da Refood Maia Centro, faz parte da equipa de gestão.
Integrou a bolsa de voluntariado do projeto Mais Valia da Fundação Calouste Gulbenkian. É voluntário e associado da Ser Mais Valia desde a sua criação. Integra o grupo coordenador do projeto Mentoring SMV. Faz parte da direção da SMV.
GP (Graciela Pinheiro) – Recordando um artigo que escreveu em 2023 onde nos fala da vida após a reforma, afirmou que reformar-se foi uma bênção. Porquê, Ângelo?
De forma geral, gostei do que fiz enquanto profissional. Claro que, como quase toda a gente, passei momentos melhores e outros mais difíceis. Um destes últimos foi na fase final da vida ativa, o que me motivou para a mudança e facilitou a transição. Mais do que o tempo livre, que continua a ser escasso, a reforma permitiu-me gerir melhor os meus dias e dedicar-me a atividades que desejava fazer, nomeadamente o voluntariado. Quando digo que a reforma foi uma bênção, refiro-me a essa liberdade de escolha e também às oportunidades que foram surgindo de pôr ao serviço de outros as competências e experiências que fui adquirindo na vida profissional. E refiro-me também ao tempo acrescido que posso dedicar à família – em especial aos netos que entretanto foram surgindo – e aos amigos e a algumas atividades de lazer que aprecio.
GP – Nessa altura, confessou que não foi fácil encontrar oportunidades de voluntariado, visto que o objetivo pretendido passava pelo sentimento de realização pessoal aliado a uma participação de valor acrescentado. Na busca de organizações credíveis encontra, em 2015, o projeto Mais Valia da Fundação Calouste Gulbenkian. O que fez nesse projeto?
Colaborei perto de 20 anos no Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar do Porto e essa missão reforçou a minha sensibilidade para o valor do trabalho voluntário com foco nas necessidades das outras pessoas, em que recebemos a melhor das remunerações: fazer alguém um pouco mais feliz. Ao reformar-me, procurei alargar os horizontes de trabalho voluntário. É verdade que andei alguns meses à procura. Fiz vários contactos que não me entusiasmaram, exatamente porque pouco valor eu poderia acrescentar e porque se tornariam meras ocupações de tempo livre. Reformei-me em meados de 2014 e só no final de 2015 é que pude integrar o projeto Mais Valia, que me aliciou pela orientação para a faixa etária em que me encontrava e por ser um voluntariado de competências. A formação inicial que fizemos reforçou a convicção de ter feito a escolha certa, mas, em boa verdade, só tive participação ativa quando a Ser Mais Valia já estava constituída, como adiante refiro. Embora não tenha tido nenhum papel na criação da associação, para além da adesão desde o início, pude ajudar nos primeiros passos, nomeadamente participando na pequena equipa que preparou a versão do Regulamento Interno que esteve em vigor até há pouco tempo.
GP – Encontrou, também, o projeto Refood onde ainda se mantém. Quais são as tarefas que lhe estão atribuídas?
A Refood surgiu na tal fase de procura, concretamente em início de 2015, e aliciou-me pela seriedade e rigor de organização e pela articulação que faz entre o combate ao desperdício alimentar e a satisfação das necessidades de famílias carenciadas. Pareceu-me que respondia a uma necessidade na Maia e, com uns poucos amigos, abalancei-me a fundar o núcleo Refood Maia Centro, depois de confirmar com a autarquia que o projeto respondia a carências existentes e complementava outras respostas sociais já no terreno. Coube-me coordenar a fase de criação do núcleo e também os primeiros anos da atividade, que arrancou em início de 2016. Sou gestor de um turno semanal de 3 horas, no qual a principal tarefa é a preparação dos kits de refeições para as famílias que apoiamos, e faço também semanalmente a recolha de excedentes de refeições numa unidade hoteleira próxima. Para além disso, como membro da equipa de gestão, cabe-me a coordenação dos chamados gestores de turno e integro a equipa encarregada da formação dos novos voluntários.
GP – Terminado o projeto da Gulbenkian, passa a integrar a Ser Mais Valia, sendo um voluntário com múltiplas atividades. Em 2017 e 2018 fez missões em Moçambique junto de organizações que apoiam crianças e jovens em risco. Dessas missões, podemos dizer que trouxe na bagagem uma vontade acrescida de continuar a apoiar esses jovens à distância?
Sem exageros, posso dizer que essas missões me transformaram. Não tinha experiência de voluntariado em África e o choque com uma realidade tão diferente da nossa marcou-me. Percebi que muitos dos jovens com que contactei tinham excelentes capacidades e vontade de progredir, mas que as circunstâncias em que viviam lhes limitavam o acesso ao ensino médio e superior. As instituições que os acolhiam confirmaram essa necessidade de apoios aos jovens para prosseguir estudos. Isso fez-me trabalhar com a Direção de então no sentido de encontrarmos formas de contribuir para que esses jovens tivessem oportunidade de mostrar o seu valor.
GP – De que forma é feito esse apoio?
O apoio tem sido feito desde então através de campanhas de apadrinhamento anuais, que continuam até hoje. Essas campanhas, lançadas no site e na rede de contactos da Ser Mais Valia, são dirigidas a jovens indicados pelas instituições onde trabalhei e têm permitido angariar contributos monetários que ajudam a custear as despesas de inscrição e frequência nas universidades moçambicanas. Estes contributos são canalizados para as instituições de acolhimento, de forma a garantir uma gestão rigorosa e o acompanhamento próximo do percurso escolar de cada um. Além disso, e não menos importante, pude manter o contacto frequente com alguns desses jovens, através das redes sociais. Faço uma espécie de mentoria à distância, não só em questões relacionadas com a vida académica, mas também em aspetos da vida pessoal, familiar, social e profissional. É uma grande alegria para mim merecer a confiança destes jovens, que recorrem ao “tio Ângelo” para refletir sobre os seus sonhos e anseios e também sobre as dificuldades que enfrentam e fico muito feliz quando os vejo colher os frutos do seu esforço perseverante.
GP – O Mentoring é outro projeto em que o Ângelo diz estar “de alma inteira”. Pode dizer-nos o que significa esta expressão?
Já há 5 anos que colaboro no projeto Mentoring SMV. Não gosto de me envolver de forma superficial nas coisas, gosto de me entregar com os saberes e competências que possa partilhar e com muita disponibilidade pessoal, também com uma postura de abertura às novidades que podem surgir. Não estou no Mentoring para dar lições, para supervisionar ou para controlar, mas sim para caminhar com os jovens que me são confiados, para os apoiar no seu crescimento pessoal, social e académico, deixando-me interpelar pelas diferenças – de idade, personalidade, cultura – para aprender com elas, oferecendo também o que sinto e penso e aquilo que a vida me foi ensinando. Estar “de alma inteira” é isso mesmo, é envolver toda a minha personalidade e capacidades e pôr-me em atitude de serviço como companheiro de percurso, capaz de escutar, incentivar, aconselhar, integrar, partilhar alegrias e também dores e preocupações.

GP – Faz parte da atual direção da Ser Mais Valia, tendo-lhe sido atribuída a Área de Projetos. Pode falar-nos do trabalho que está implícito nessa Área?
A participação na direção é, mais uma vez, o querer estar “de alma inteira” naquilo em que me envolvo. Entendi que devia contribuir para ajudar a resolver a situação difícil por que passámos no início deste ano e por isso aceitei integrar a lista candidata. Quanto ao pelouro que me foi atribuído, considero que os projetos, missões e atividades são a razão de ser da associação. Como dizem os nossos estatutos, existimos “para desenvolver projetos de voluntariado e cidadania, essencialmente no âmbito da partilha de conhecimentos, de competências e saber acumulado, em Portugal, nos PALOP ou noutros países.” O desafio deste pelouro é proporcionar aos associados oportunidades de concretizar este objetivo, seja por iniciativa da direção, de parceiros que nos solicitam colaboração, de outras ONGD ou dos próprios associados. Aproveito aqui para reforçar um apelo que já tive oportunidade de expressar aos associados: contribuam com ideias e propostas de projetos, missões e atividades – e também com sugestões sobre as formas de os financiar, claro! – de modo a que a Ser Mais Valia alargue o seu contributo nas áreas de atividade em que está presente. Não cabe só à direção propor projetos! É importante referir aqui, e agradecer, a colaboração fantástica que a equipa da área de gestão de projetos dá, garantindo que cada proposta é analisada, preparada, concretizada e avaliada.
No plano de atividades para 2026, tive oportunidade de propor à direção e depois aos associados três desafios para esta área: continuar a transição para projetos sustentáveis de médio/longo prazo alavancados nos resultados que vão sendo conseguidos, diversificar as áreas de atuação e apoiar o marketing na obtenção de financiamentos. De facto, parece-me que devemos dar prioridade a projetos, missões e atividades em que, degrau a degrau, apoiados no que conseguimos em cada etapa, vamos fazendo progredir as instituições com as quais colaboramos. Do mesmo modo, é importante persistirmos na reedição de projetos de sucesso – de que o Mais Conhecimento, Melhor Futuro e o Kripor são excelentes exemplos – aprendendo com o resultado de cada edição para fazer ainda melhor na seguinte. Cabe aqui também uma referência especial a três bandeiras, que são os nossos projetos sem previsão de encerramento: o Mentoring, o Bairro em Movimento e o Escritafricando. Acredito que este tipo de trabalho será mais frutuoso do que realizações avulsas, sem continuidade. Por outro lado, é sabido que temos atuado sobretudo nas áreas da educação e da saúde. Temos competências dentro da associação para abrir horizontes nas áreas da cidadania, da cultura, das tecnologias, e é desejável que o façamos, contando para isso com a iniciativa de propostas por parte dos associados. Finalmente, e porque nada se faz sem despesas e porque os modelos de financiamento para a cooperação, a nível internacional, vivem tempos difíceis e confusos, temos de investir tempo e saberes na procura de formas de financiar aquilo que queremos concretizar. Neste domínio, a recente criação de uma equipa de marketing – para “vender” as capacidades da associação junto de potenciais parceiros financiadores – é um passo muito significativo e que tem muito potencial.
GP – Para terminar, e em jeito de conclusão, quer reportar algo que considere relevante e oportuno?
Gostava de testemunhar uma convicção que já vem de há vários anos, mas cada vez se reforça mais em mim: a nossa associação, através de todos os seus membros, faz realmente jus ao nome que adotou! Pese embora a nossa dimensão relativamente pequena, creio que temos desenvolvido uma atividade marcante e temos deixado mais valias por onde passamos. E creio também que, apesar de sermos pessoas que já andam por cá há bastantes anos – ou precisamente por isso! – temos surpreendido pela capacidade empreendedora, pelo rigor e qualidade do que fazemos, pela disponibilidade para nos reinventarmos e pelo olhar muito voltado para o futuro. Acredito que temos sabido verdadeiramente ser mais valia.

Graciela Pinheiro
Voluntária da Ser Mais Valia