Quem Somos, o que Fazemos – Filomena Correia

Quem é a Filomena?

Sou enfermeira no Bloco Operatório Central da ULS Coimbra há 38 anos, desenvolvo a minha atividade na área de traumatologia e transplantação hepática adulto e pediátrica. Sou também especialista em enfermagem perioperatória e dedicada à formação e supervisão clínica. Tenho 61 anos, sou filha, mãe, avó, esposa e amiga. Valorizo profundamente o tempo em família, o bem-estar físico e emocional e gosto de viajar pela descoberta de novas culturas. Sinto-me especialmente motivada para integrar missões solidárias nos PALOP, onde posso colocar a minha experiência ao serviço de quem mais necessita.

Como entrou a SMV na sua vida e o que a motivou a ser associada e voluntária?

A SMV surgiu do meu interesse crescente de contribuir de forma mais ativa para o bem-estar de outras comunidades. Enquanto profissional de saúde, sempre senti uma forte vocação para cuidar do outro, mas com o tempo surgiu também a vontade de alargar esse impacto para além do meu contexto habitual. Identifiquei-me com a missão da associação, especialmente com a valorização dos voluntários seniores e do envelhecimento ativo. A possibilidade de participar em projetos com impacto real nos PALOP foi determinante para dar este passo.

Esta foi a sua primeira experiência de voluntariado?

Não. A minha primeira missão decorreu em 2024, no Hospital Rural do Songo (HRS), em Moçambique, onde organizei a logística de um novo bloco operatório (BO) e capacitei todos os profissionais em enfermagem perioperatória. Esta experiência permitiu-me adaptar o plano de formação previamente elaborado, a contextos muito desafiantes, colaborar com equipas locais e preparar o terreno para futuras ações, através da implementação de Projetos de Melhoria Contínua no BO, com impacto na organização, eficiência e qualidade dos cuidados prestados ao doente cirúrgico. Foi uma experiência enriquecedora e essencial para perceber a importância de um voluntariado estruturado, contínuo e adaptado às necessidades locais. Cumpre-me destacar, com profundo reconhecimento, a excecional capacidade de dedicação, liderança e sentido de missão da Diretora do HRS, Dra. Elisa Gundana. A sua atuação firme, visionária e incansável tem sido absolutamente determinante para a concretização destas missões, que se revestem de elevado valor humano e social para uma população extremamente vulnerável.

É difícil conciliar a atividade profissional com o voluntariado?

Exige organização, mas é totalmente possível quando existe planeamento, motivação e paixão pelo que se faz. Enquanto enfermeira de BO, preciso de gerir cuidadosamente o meu tempo e priorizar compromissos, mas a vontade de contribuir e o significado das missões com impacto real nos PALOP tornam o esforço gratificante. O voluntariado na ONGD-SMV permite-me experimentar um equilíbrio saudável entre trabalho, vida pessoal e envolvimento solidário.

Regressou recentemente de uma nova missão no Songo. Como foi trabalhar com a equipa que a acompanhou?

Foi um privilégio trabalhar com o Professor Guilherme Tralhão, cirurgião e diretor do serviço de Cirurgia da ULS Coimbra, e com a Dra. Sónia Abrantes, anestesiologista, na Campanha de Cirurgias Gratuitas. O Professor Tralhão trouxe toda a sua experiência e liderança cirúrgica, a Dra. Sónia Abrantes garantiu um suporte anestésico seguro e humano. Criámos uma equipa coesa, onde a partilha de conhecimento, a confiança e a amizade foram fundamentais para o sucesso da campanha cirúrgica e prestar cuidados de saúde de qualidade à comunidade local.

Sendo associada da SMV, apresentou a proposta desta missão. Como foi esse processo?

A proposta surgiu após o interesse manifestado pelo Professor Guilherme Tralhão em colaborar com a SMV, através da realização de uma campanha cirúrgica solidária, decorrente do relato da minha 1ª experiência em 2024. A Diretora do HRS, Dra. Elisa Gundana, Diretora do Hospital Rural do Songo, mostrou grande abertura para a iniciativa. A preparação exigiu articulação logística, definição de prioridades e trabalho conjunto com a equipa do hospital.

Transportaram também donativos. Como foi feita a angariação?

Levámos medicamentos, material clínico e consumíveis essenciais, doados por empresas de dispositivos médicos, com especial destaque para a Molnlycke. Estes donativos ajudaram a colmatar ruturas de stock e permitiram realizar a campanha com segurança, além de apoiar a formação da equipa local. Queremos deixar aqui expresso o nosso Bem-Haja!

Qual o balanço da missão?

O balanço é extremamente positivo. Realizámos 120 doentes, abrangendo intervenções de diferentes níveis de complexidade. Foram atendidos doentes de todas as idades, desde bebés a idosos, provenientes de várias províncias, o que evidencia o alcance e a relevância da iniciativa. Resforçámos as competências locais nas áreas de anestesia, Suporte Básico de Vida (SBV) e Suporte Avançado de Vida (SAV), bem como na realização de simulações de práticas de enfermagem em contexto de Bloco Operatório. Esta componente formativa revelou-se essencial para promover a qualidade dos cuidados e reforçar a autonomia da equipa local. A recetividade da população foi extraordinária e o impacto na melhoria da qualidade de vida foi evidente. A missão foi muito gratificante, permitindo responder a necessidades cirúrgicas de pessoas vulneráveis. Ver o impacto direto no bem‑estar dos doentes e contribuir para fortalecer a equipa local foi profundamente marcante e reforçou a minha motivação para continuar a colaborar com o Hospital Rural do Songo e com a SMV.

 

 

Graciela Pinheiro

Voluntária da SMV