4 perguntas a SUMAILA JALÓ

4 PERGUNTAS a SUMAILA JALÓ*

 

1 – Sumaila, em 2018 veio da Guiné para Portugal, como bolseiro do Instituto Camões, para concretizar o seu Mestrado em História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Fez a sua dissertação no dia 30 de Setembro último com a bonita classificação de 18 valores. E agora, o que se segue? Doutoramento?

Na verdade, a minha vontade era de voltar ao meu país após a conclusão do Mestrado e continuar a servir como professor, activista e agora também pesquisador interessado em matérias de Educação, Cultura e História. O Doutoramento seria daqui a dois ou três anos. No entanto, os últimos* acontecimentos no país não se demostram favoráveis ao meu regresso, dado que, como interveniente na vida política desde 2016 através do activismo cívico, as condições de segurança não me são favoráveis, sobretudo por me assumir um opositor do actual poder político. Daí estar à espera da selecção final de candidatos ao Doutoramento em “Discursos: Cultura, História, Sociedade”, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Uma entrada neste curso permitir-me-ia dar seguimento à pesquisa sobre a questão educativa na Guiné-Bissau e, desta vez, focada na compreensão da relação “Educação, Democratização e Políticas Públicas” para o desenvolvimento do país.

 

2 – O tema do seu mestrado está relacionado com políticas educativas: «Ideologias Educativas na Guiné-Bissau – 1954-1986». A educação é um tema que lhe é muito próximo ou que considera essencial para o desenvolvimento de um país?

As duas coisas: a questão educativa é-me tão próxima, porque sou professor do ensino secundário vinculado ao Ministério da Educação do meu país, quanto um tema que considero essencial para o desenvolvimento de um país. Considero a educação uma possibilidade de munir homens e mulheres de ferramentas de várias ordens capazes de permitir-lhes operar transformações impostas pelas necessidades do seu contexto de vivência, mas também de transmissão de valores que possam servir ao bem-estar de toda a humanidade. A Guiné-Bissau é particularmente um país de grandes desafios com vista à superação de necessidades de várias ordens: de consolidação da independência, soberania e democracia; de transformações no domínio socioeconómico capazes de garantir uma sobrevivência mais digna à população do país; mas também de tirar melhor proveito das várias potencialidades oferecidas pela sua natureza. Um sistema educativo cuja concepção e desenvolvimento se baseia nestas demandas sociais, culturais e económicas é o que seria motor daquilo que o nosso país precisa para o seu progresso.

3 – De alguma forma a associação Ser Mais Valia esteve presente ou cooperante consigo durante a preparação da sua tese?

O meu Mestrado baseia-se na minha experiência enquanto professor do secundário desde 2014, mas também do meu envolvimento cívico enquanto activista. O tema da minha dissertação é reflexo dessas experiências e de várias influências recebidas de amigos e académicos mais experientes que me são mais próximos. Talvez por isso não tenha solicitado muito aos nobres serviços da Ser Mais Valia. Porém, desde o encontro de Aveiro em 2019, a associação nunca deixou de estar por perto através de várias das suas voluntárias que sempre estiveram em contacto comigo e a inteirar-se dos passos dados e a dar ao longo dos dois anos de pesquisa no curso de Mestrado recentemente concluído. Facto a que serei eternamente grato.

 

4 – A sua experiência de vida, como estudante e cidadão, na bonita cidade do Porto foi enriquecedora para si?

Gosto da cidade do Porto. Ela é linda e de gente muito simpática. O Rio Douro faz-me acalmar a nostalgia de casa. A vila onde nasci na Guiné-Bissau (Farim), onde vivi até aos meus 16 anos e com a qual mantenho uma ligação umbilical, tem um rio que a separa com uma linda aldeia situada a 3 km, mais ou menos como o Douro separa Porto à linda Vila Nova de Gaia. Sem me esquecer da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, uma excelente instituição académica, com o curso de Mestrado em História Contemporânea particularmente interessante, constituído por um corpo docente experiente, pedagogicamente acima da média e muito disponível a apoiar os estudantes. Pelo menos foi o que me aconteceu sempre que precisei de apoio de um docente do curso que frequentava. Ainda tinha uma turma com uma interessante diversidade de nacionalidades, o que possibilitou diálogos sobre variados contextos socioculturais, com colegas solidários. Tive sorte de trabalhar com um excelente orientador, Professor Luís Antunes Grosso Correia, uma pessoa simpática e disponível a ajudar. O seu acompanhamento foi determinante para o desfecho da apresentação da minha dissertação.

Levarei as boas memórias da Cidade Invicta comigo para sempre!

 

 

* Sumaila Jaló, guineense, 29 anos de idade, professor de Língua Portuguesa no Liceu Agostinho Neto em Bissau desde 2014.

Licenciado em Estudos de Língua Portuguesa pela escola Normal Superior Tchico Té, em Bissau, e Mestre em História Contemporânea, pela FLUP.

Activista social focado, sobretudo, nas áreas da Educação e Cultura que considera motores para o desenvolvimento de um país.

Amigo da S.M.V., tendo criado laços de proximidade com voluntários da S.M.V. do projecto Mentoring.