Leonida Milhões, transmontana, reside, há uma década, nas Caldas da Rainha. É mãe de 4 filhas e avó de 4 netos. Profissional de Educação, exerceu funções docentes em Trás-os-Montes e Beira Alta. Fez parte do projeto Mais Valia, da Fundação Calouste Gulbenkian, e integra a Ser Mais Valia desde que foi criada. É coordenadora do Grupo da Língua Portuguesa da SMV. Para a conhecermos melhor, fica o registo da conversa que tivemos.
GC (Graciela Pinheiro) – Fizeste parte do projeto Mais Valia da Fundação Calouste Gulbenkian e integras a Ser Mais Valia desde a sua criação. Que motivação te conduziu até estes projetos?
Não podemos passar a vida à espera que ela aconteça nem querer que nos indiquem todos os caminhos. Tenho necessidade de fazer mais ou fazer melhor, curiosidade, vontade de desaprender e aprender de novo em cada momento, errar, experimentar, estar atenta e colocar as minhas competências ao serviço da comunidade, ou seja, de fazer as minhas escolhas e viver com as decisões que tomo. Estes projetos, que conheci por acaso, dão-me mais uma oportunidade de trabalhar em equipa, vivendo a cidadania pessoal em responsabilidade coletiva, integrada numa associação que tem valores, missão e visão com os quais me identifico.
GP – Avó de quatro netos, decidiste, após a aposentação, ser avó a tempo inteiro mantendo, em acumulação, o trabalho associativo e de voluntariado a que sempre estiveste ligada. Podes falar-nos desse trabalho associativo?
Sempre valorizei o associativismo considerando-o um vasto campo de trabalho onde se juntam saberes, idades, competências, experiências diversificadas e interesses muito diversos com um único objetivo: unir esforços, discutir possibilidades e crescer no caminho das soluções encontradas. Assim, as associações e movimentos que integrei foram escola de vida onde cresci, aprendi e me fui construindo a cada momento. Das associações de estudantes e movimentos juvenis, dos quais saliento o CNE, passei às Associações de Pais e Encarregados de Educação (com suas Federações e Confederações), Associações e movimentos de professores, Sindicatos, Associações locais e culturais. Participar em atividades promovidas pela Liga Portuguesa Contra o Cancro, o Banco Alimentar, a Liga dos Combatentes, a Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro, a Fundação Salesianos, integrar os órgãos sociais da Confederação Nacional dos Antigos Alunos das Escolas Católicas ou ser associada da Ser Mais Valia é percorrer diferentes caminhos (com seu tempo, motivação e oportunidade) em contínuo processo de construção. Participar desafia-nos, compromete-nos e impele-nos à cooperação esclarecida levando-nos mais longe porque não vamos sós.
GP – E de voluntariado?
Considero todo o trabalho associativo como trabalho de ativismo e voluntariado pelo que tenho muita dificuldade em separar estes conceitos. Mãe Clara diz que …onde houver o bem para fazer, faça-se.; BP diz que Na hora de partir devemos deixar este mundo um pouco melhor do que o encontrámos. Participar de modo empenhado na vida de uma Associação, ou de uma Comunidade, interagindo e comunicando com propósito, estar aberto à novidade para criar com impacto agindo com responsabilidade e sem pensar no pagamento, valorização pessoal ou em qualquer outro benefício que daí se possa tirar é associativismo, é voluntariado e é direito e dever de cada cidadão. Fazer reforço de competências em Língua Portuguesa, em Timor-Leste ou cozinhar, fazer compras e apoiar o grupo num Campo de Férias em Cabo Verde, pela Fundação Salesianos, fazer missões para melhoria da proficiência em Língua Portuguesa pela SMV, cooperar nos peditórios da Liga Portuguesa Contra o Cancro, ou do Banco Alimentar, sendo trabalhos diferentes são vividos e realizados com a mesma alegria e responsabilidade.
GP – A tua primeira missão pela SMV foi em 2017, na Guiné-Bissau. Em que consistiu essa tua missão?
Essa primeira missão foi de reforço de competências em Língua Portuguesa para o pessoal docente e administrativo da Escola Nacional de Saúde, em Bissau, no período da manhã. De tarde, assumi o mesmo trabalho no Hospital Pediátrico de S. José de Bôr.
GP – Outras missões te levaram a viajar até à Guiné-Bissau. No âmbito de que projetos decorreram essas missões?
Na SMV estive sempre ligada à área da Língua Portuguesa – Reforço de competências e melhoria da proficiência em LP. Em tempo de pandemia integrei o grupo que fez esta formação online tendo como formandos quadros dos Ministérios da Saúde e do Interior.
No mesmo contexto voltei mais algumas vezes à Guiné-Bissau para formação a quadros do Ministério da Função Pública e da Agricultura, no Centro Cultural Português; a formação do INEP, da Biblioteca e dos Arquivos Históricos Nacionais, decorreu numa sala do INEP. Nesta missão fiz também, em conjunto com a nossa associada Aida Batista, uma formação de 35h, não prevista antecipadamente, para um grupo de candidatos a vagas de trabalho em Portugal. Esta formação foi pedida pelo Centro de Formação Profissional em Bissau e pelo Grupo Mota-Engil. As aulas decorreram nas instalações da Cooperação Portuguesa em Bissau.
Com aulas presenciais e online participei da 2ª edição do Projeto Mais Conhecimento-Melhor Futuro financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Para as aulas, presenciais e online, é usada uma sala da Cooperação Portuguesa equipada pelo Projeto para esse efeito. Nesta última missão trabalhei com alunos, bolseiros do Camões, IP (Projeto KriPor) durante a manhã. Este grupo era composto por alunos que, na qualidade de bolseiros do Camões IP, fizeram a formação para melhoria da proficiência em Língua e Cultura Portuguesas antes da sua vinda para Portugal onde frequentarão diferentes estabelecimentos de ensino superior para Licenciatura e Mestrado. Ao final do dia, das 18h às 21, a formação destinou-se aos Candidatos a exame à Ordem dos Advogados.
Para além destas formações, sempre que houve oportunidade, participei em seminários, conferências, aulas abertas a outros estudantes e outros públicos, visionamento de filmes seguido de debate e outras atividades promovidas pelo Centro Cultural Português em Bissau.

GP – Como coordenadora do grupo de Língua Portuguesa da SMV, estás, também, envolvida em vários projetos.
Que projetos são e quais os seus objetivos?
Como coordenadora do Grupo de Língua Portuguesa, tenho como prioridade envolver todos os associados, com habilitações nesta área, não só na criação de programas para reforço de competências e melhoria da proficiência em Língua Portuguesa como também na criação e recolha de materiais pedagógicos. Com estes programas e materiais pretendemos criar e organizar, para a SMV, um acervo de materiais úteis ao ensino/aprendizagem da Língua Portuguesa (diferentes níveis) apoiando as respetivas fases de planeamento, preparação, execução e avaliação de cada programa.
Temos como objetivo promover a valorização da LP apoiando, implementando e acompanhando atividades e projetos que promovam o seu bom uso, o seu estudo e aperfeiçoamento de modo a contribuir para a melhoria da proficiência em LP.
Projetos na área da LP:
• Reforço de competências – nível 1;
• Reforço de competências – nível 2 (continuidade e texto utilitário);
• Português 2ª língua ou língua não materna – nível 1, é destinado a migrantes e imigrantes não falantes da LP e realizou-se em Lisboa;
• KriPor – destina-se a bolseiros do Camões IP e é desenvolvido na Guiné-Bissau;
• Djunta Mon – desenvolvido em parceria com AEGB do Porto destina-se a estudantes guineenses;
• MC-MF – financiado pela FCG destina-se a 30 alunos do 12º ano a frequentar escolas de Bissau;
• Formação de professores/monitores para apoio à formação de professores em parcer-a com a FEC – desenvolvido em Angola;
• PeA – plataforma de ensino à distância que está em fase de reestruturação;
• João13 – em parceria com a Associação João13, desenvolveu-se em Lisboa – NAL+ de S. Vicente – nível 1;
Alguns destes projetos poderão ser replicados noutros locais onde se verifique o seu interesse e oportunidade.
GP – Coordenas, também, os projetos Djunta Mon e João 13. desenvolvidos em Portugal.
Em Portugal desenvolvemos, no Porto, durante este ano letivo, o Projeto Djnta Mon (nome crioulo que expressa a ideia de: união de esforços, juntar as mãos para) respondendo a uma solicitação da Associação de Estudantes Guineenses (AEGB) do Porto. Em Lisboa tivemos o Projeto João13. No primeiro caso o programa e as aulas foram da responsabilidade das nossas associadas Margarida Mouta e Júlia Cordas e decorreram no Centro Paroquial Social São Cirilo com quem estabelecemos uma parceria. Este projeto de reforço de competências em Língua Portuguesa, teve como destinatários alunos guineenses a estudar em estabelecimentos de ensino superior da área metropolitana do Porto e visa a melhoria dos seus resultados académicos e a sua melhor integração.
O Projeto João13 foi concebido para dar resposta a uma necessidade sentida pela João13, associação que dá apoio a um público em situação de maior vulnerabilidade, e desenvolveu-se de janeiro a julho de 2025. O programa e as sessões, com duração de duas horas cada, foram elaborados por mim e pela nossa associada Iva Flores com quem trabalhei em par pedagógico ou alternando as sessões. As sessões realizaram-se, em regime de porta aberta, nas instalações da João13 – NAL+ de S. Vicente, em Lisboa. Este Projeto visa dotar os formandos de competências básicas (nível 1) no domínio da LP de modo a facilitar a comunicação e expressão oral bem como a sua melhor integração no país de acolhimento facilitando, assim, a possibilidade de acesso ao mercado de trabalho.
GP – Em jeito de conclusão, queres referir algo que consideres de relevante e oportuno?
Faço um apelo a todos os que possam dispor de algum tempo para que coloquem suas competências ao serviço dos muitos Projetos de Desenvolvimento existentes. O associativismo e o voluntariado são um vasto campo onde todos temos lugar e onde cada um é necessário. Ajuda e ajuda-nos, tem as suas dificuldades e, por vezes, tira-nos da nossa zona de conforto para o desconhecido e a diferença, mas saber que participámos, ver um sorriso ou ouvir um OBRIGADO(A) compensam bem qualquer sacrifício.
Ninguém é tão ignorante que não tenha nada a ensinar. Ninguém é tão sábio que não tenha algo a aprender.
Blaise Pascal

Graciela Pinheiro
Voluntária da Ser Mais Valia